sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Ode aos marginais

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"...a História precisa de novas linguagens, de inventar novas palavras, de produzir novos conceitos, que sejam capazes de conceder glória à gosma da lesma nos vitrais das catedrais, que sejam capazes de majestificar a planta brotada nas frinchas dos fortes; de dar grandeza aos homens que chafurdam nos lixos como porcos e urubus; dormem nas sarjetas como baratas, habitam os buracos dos viadutos como ratos; espojam-se nos barracos das favelas como moscas; queimam sob o sol e se cortam na lâmina verde dos canaviais como lagartos; que se tornam lama nos garimpos e mangues; que se tornam bichos nas jaulas das prisões; que se tornam loucos nas salas dos hospícios; que se enchem de silicone, batom e fantasia para aguentar a barra de amar diferente; que adoecem de amar por não terem compreendido; de dar grandeza às crianças que enegrecem a vida nas carvoarias; que perdem as mãos nas máquinas de agave; que perdem a infância e a inocência nos quartos de pensão e nas boleias de caminhão; que se prostituem nas praças e nas ruas; que comem bala e cheiram pó para terem um pouco de ilusão, para viajarem pelo menos uma vez ao dia; que brincam com a vida por falta de brinquedo; que emburrecem diariamente nas carteiras das escolas públicas; de dar grandeza às mulheres violentadas por seus machos; estupradas por seus patrões; acocoradas toda a vida na beira do rio, do pote e do fogão; que amam filhos que não sabem se voltam para casa todo dia; que carregam trouxas de pano e de homens..."

Durval Muniz de Albuquerque Júnior, em "História, a Arte de inventar o passado" (p.95)

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