terça-feira, 24 de junho de 2014

Marcha



Se um homem marcha com um passo diferente do dos seus companheiros, é porque ouve outro tambor.

Há um tambor outro, batendo em ritmo acelerado e o som dos passos de um exército de pés descalços.

Eles não marcham. Mal conseguem levantar os pés do chão. Há desnutrição grave, há desespero, há angústias. É um arrastar silencioso, em luto, em choro, em dor.

Mães maltrapilhas levam filhos pendurados ao peito murcho e seco.

Suicidas vão desesperados passando à frente da adúltera machucada por dentro e por fora.

É um exército de moribundos. Enlutados. Desesperançados. Pecadores. Oprimidos. Postos a morrer.

São milhões de esquecidos. Dos que já não podem ser. Invisíveis. Doentes. Loucos. Hereges. Feito alvo do ódio daqueles que os rotularam.

O Homem de Nazaré está entre eles. Está misturado a eles. Ouve e chora o pranto deles.

É confundido com eles e de vez em quando leva alguma cusparada destinada a algum desgraçado pecador.

Ontem teve marcha para Ele.

Mas Ele ouve outro som.

O som das batidas, feito tambores, de um coração cansado que caminha sem rumo à espera de socorro, até que tombe, sem forças, sem alguém para lhe chorar a dor, sem velório, sem ter tido motivos de querer viver.

Ontem teve marcha para Ele.

Mas Ele não marchou com eles.

Fez companhia ao pai enlutado, celebrou o perdão do casal, jogou bola com meninos de rua, recebeu o louvor de pequeninos e consolou o que fora proibido de frequentar a igreja: Filho meu, não chores mais.

Só existe um Caminhar.

O de volta para Casa.

Só existe uma Marcha.

Aquela que vai na direção do Próximo.

As outras todas são marchas-ré.



Gito
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quinta-feira, 24 de abril de 2014

Confissão de fé e caminhada



Creio e desacredito.

Crer, tem a ver com a fé. A-creditar, com o crédito. E tenho desacreditado de muita coisa. 

A fé, permanece fé, inabalável. As crenças, no entanto, se vão...

Fé, em Deus. Crença, no resto.

Não acredito em Deus. Não preciso dar crédito a Deus, Ele É.

Mas vivo pela fé em Deus e que Ele mesmo estava em Cristo reconciliando consigo o mundo e não imputando aos homens as suas transgressões.

Sim, essa é a minha simples confissão de fé.

E serei julgado por ela. Diante de Deus e dos homens.

Mas, sou alguém das andanças, da estrada, do caminhar, peregrino; que é ser ajudante geral na humanidade, portador de um bilhete de Esperança que é entregue seja pelo abraço como pelas palavras ditas em ambientes todos aos quais me sejam permitido estar e partilhar.

E, por conta deste meu chamamento, quero especificar bem as coisas, para que eu seja livre no andar entre todos, sem que acerca de mim digam que de mim pouco sabem e que a minha presença entre todos seja sempre transparente da minha parte, ainda que eu saiba que tal confissão complica e limita o caminhar em muitos ambientes. 

Sou cristão.

Mas tenho o "cristianismo" como o processo deturpado do movimento simples dos seguidores de Jesus de Nazaré.

Os muitos aparatos, a muita politicagem, a sufocação do diálogo, o menosprezo ao diferente, o amor pela estrutura, o sangue derramado pela sede de poder e o conservadorismo vil são algumas das pragas que o cristianismo enquanto religião espalhou pelo mundo.

Não vejo nada disso no viver proposto pelo Nazareno.

Mas sou filho da fé cristã. Assim a chamam. 

Sou membro da Igreja Presbiteriana do Brasil e serei, a não ser que dela me excluam. 

Mas não a defendo como superior aos irmãos Batistas, assembleianos, metodistas, quadrangulares, católicos ou outros; como não raramente, tenho visto acontecer.

Tenho amigos presbiterianos. Tenho amigos batistas. Assembléianos. Gente de igrejinhas com nome próprio. Católicos romanos. E são todos muito bem vindos em minha casa.

Tenho amigos ateus. Tenho amigos muçulmanos. Tenho amigos que não se identificam com nada. Tenho amigos espíritas. Tenho até amigos evangélicos. E todos também são muito bem vindos em minha casa.

E não tenho a teologia como o tão somente modo pelo qual Deus pode ser discernido. Nem sistematizado. Ela tem a mania de se apresentar apenas como conjecturas bem postas de um Ser não estudável e vazia de amor e de significado na vivência.

E não uso o termo reformado como quem com isso ficaria um passo à frente do mundo todo na corrida pelo "certo".

Em Uberlândia, onde vivo, me reúno em amor e com toda a singeleza de coração, com meus amigos do movimento Caminho da Graça.

Nós nos reunimos numa faculdade, com a formalidade mínima e regados de toda a Graça, nos colocamos como servos em amor, entendendo que Deus escolheu ser amado no próximo e que todos pecaram, e todos carecem da glória de Deus, à começar em mim; em nós.

Entre eles, sou irmão caçula. São meus manos de vivência e caminhada. E com eles divido risos, dores, orações, o pão, a ceia, sonhos, os chopps, a graça e a vida.

O Caminho da Graça é uma iniciativa do Rev. Caio Fábio d'Araújo Filho. Sim. O homem Caio, pecador. O homem Caio filho da Graça, assim como nós. 

Caio é meu pastor há anos, sendo que ainda menino, por conta de suas mensagens, fui sendo agraciado com o amor do Deus que ele anunciava, chamado Jesus de Nazaré.

Algumas terças e quintas me reúno com minha família e os queridos da Igreja Batista Manaaim. Com toda a simplicidade.

Alguns finais de semana me reúno com amigos para que eu seja corrigido, confrontado e apascentado.

E nos dias todos, tenho a presença de Deus aqui, me conecto à Ele em oração, mesmo que sem balbuciar palavra alguma.

Meu seminário de Teologia é a leitura do Evangelho e a busca pela aplicação dos ensinamentos propostos no meu dia-a-dia.

Minha apresentação para momentos em que eu vá compartilhar alguma mensagem é a de que eu não posso deixar de falar do que tenho visto e ouvido.

A indicação que peço que façam de mim é: ele é tão santo quanto o mais terrível pecador salvo pode ser.

Meu título é apenas meu nome.

Meu currículo é a estrada. Centenas de desconhecidos deram testemunho, poucos conhecidos viram e Deus é testemunha que eu andei segundo a minha consciência.

Sou um peregrino.

Caminhante.

Gente.

Cheio de pecado.

Transbordado de Graça.

As minhas travessias mudarão, assim é o curso da vida... mas o o meu caminhar é esse.

E seguro nas mãos de Deus que me levanta quando caio, canso ou quero desistir.

Ele me dá o gás, o refrigério, a calma, a paz...

E vou.

E vôo.

E sou.

Dele.


Gito Wendel.

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quarta-feira, 23 de abril de 2014

Pior que a T. da Prosperidade



Há algo pior que a Teologia da Prosperidade tão arduamente combatida principalmente por cristãos históricos.

Deixe-me ousar a falar disso falando do diabo.

Raras as vezes em que falo desse cara.

Mas penso o seguinte à respeito do diabo:

As suas manifestações nada mais são do que "efeitos especiais" como quem diz: "estou aqui, vejam!". 

Manifestações corpóreas, ranger de dentes, os possuídos com forças sobre-humanas, tudo isso não passa de "efeitos", demonstrações que estão aí, que existem, com desejo de impressionar. Mas não são, nem de longe, suas maiores ações.

As suas maiores ações são na calada, no silêncio, nas tramas, nos sistemas, nas corrupções, no poder sem pudor, nos esquemas, sem manifestação visível, apenas perceptível mas para observadores bem atentos e cheios do Espírito.

É com o disfarce do silêncio e trilhando os caminhos do "politicamente correto", que ele atua com mais frequência.

Ele se deixa perceber ao que a ele dá espaço, mas se mantém silencioso ao ouvido do aparente "perfeito varão" que de tanto ostentar ser de tal perfeição, assume o seu papel, endiabra-se com a "Síndrome de Lúcifer", querubim que ousou querer ser igual a Deus, perfeito em si mesmo, se corrompendo e se desfigurando.

Nós nos impressionamos mais com as manifestações demoníacas visíveis do que com as invisíveis.

No entanto, as invisíveis é que são as maiores ações.

O que isso tem a ver com "algo pior que a Teologia da Prosperidade"?

É que se combate o fenômeno chamado "Teologia da Prosperidade" que barganha com Deus, atribuindo a Ele apenas o papel de mero executor de desejos; principalmente porque essa teologia tem espaço hoje na mídia e causa um estardalhaço de horrores; mas se vive, em muitos casos, segundo o modelo por ela proposto, sem que se dê conta.

Se não prosperarem, descrêem. 

Em situação econômica instável, descrêem. 

Organizam um sistema financiado pelo capital e não vivem pela fé. Nesse sistema, o que rege os planos e metas de ações no Reino é o "quanto temos" e não o desafio proposto por Cristo e aceito em obediência.

O Capital é o deus de muitos que lutam em nome de Deus contra a Teologia da Prosperidade!

Esbeltos, em seus ternos de grife e sapatos importados, discursam dos púlpitos de mármore nas catedrais milionárias nos centros mais abastados do pais e com os salários e benefícios garantidos pela denominação que o "amor ao dinheiro é a raiz de todos os males".

E garantem: eu até tenho grana. Só sei que não devo amá-la. 

Nisso legitimam suas posses e possessões.

Pois deixa tal sentimento de veneração pelo Capital possuir seu viver.

Esse é também um fenômeno invisível de inversão de valores, sutil, malvado, frio, diabólico, bem pior que os que anunciam com a cara de pau que gostam de money, money, money.

E tudo que se faz invisível fica ainda mais feio quando mostra a cara.

Conheço muitos que combatem a Teologia da Prosperidade mas dela fazem uso nas invisibilidades e impercepções da vida. 

Querem Deus e Mamom - o deus das finanças. Sem se lembrar do alerta de Jesus que só é possível servir a um dos dois. Não se pode servir 80% a Deus e 20% de servidinha ao outro para que lhe seja garantido um trocado no final do mês.

É uma entrega completa.

Não basta conhecer e cumprir os mandamentos desde a juventude, feito o jovem rico, é preciso "vender tudo o que tem e dar aos pobres" e depois, voltar e seguir a Jesus, sem ter um tostão no bolso, mas completo de Jesus na vida!

Esse é o espírito de quem segue a Jesus. 

É aprender a viver com o Suficiente.

E no caso do jovem que amava ser rico, o seu "suficiente" precisava que fosse vendido para que Jesus fosse suficientemente o seu único modo de sobrevivência.

Aos humildes, que de nada do que possuem fazem suficiência, mas da Graça divina, não se corrompem por ter duas túnicas. Pois estes sabem que devem dar quando perceberem o outro que não tem.

É o mesmo princípio de andar a segunda légua e dar a outra face.

Só a humildade gera estas ações. 

E, na humildade, é possível ter posses sem ofender a Deus, já que o humilde consegue fazer delas sempre um meio para a proclamação do Reino entre todos, com justiça e sem auto-propaganda, sem que a mão esquerda saiba o que a direita faz.

São os que possuem bens, mas que humildes, sabem empobrecer e enriquecer e empobrecer novamente, se assim for, sem que a cada etapa se transformem em monstros da amargura. Sabem passar frio nas garoas sob as pontes tanto quanto agradecer pelo ar-condicionado no quarto. E que podem dizer na pobreza: Deus deu, Deus tirou. Bendito seja o nome do Senhor! E com abundância: Nada do que tenho é meu por mérito. Tenho mais do que mereço.

E aí, quanto mais tem mais precisam doar e partilhar. Já que "a quem muito foi dado, muito será cobrado" e isso se atribui também às ordens financeiras.

Como se distingue então o humilde, aquele que não vive invisível pelas subjetividades da Teologia da Prosperidade ao que, mesmo combatendo-a, faz uso de seus modos?

Os humildes não teriam nenhum problema em abrir mão de tudo o que possuem, à começar pelos títulos, as honras, os confortos, o dinheiro, os bens, até os cargos, denominações de poder, instituições e espaços sagrados. 

Mas com o temor de "deixar de seguir" o mestre, condenado à tristeza, por possuir muitas propriedades, como o caso do jovem rico. Amando a suficiência que lhe dá as muitas propriedades, sendo possuído por elas e assim, por Mamom, que possui aquele que passa a confiar no Capital como salvação, desprezando como Adão ao Deus que prometeu cuidar. 

Aquele que se deixa dominar pelas posses se torna então, possesso.

Bem-aventurados os humildes.

Por conta de sua humildade diante de Deus e por serem bons administradores do que lhes cabem, Jesus lhes deu a maior de todas as "posses":

Deles, é o Reino dos céus. (Mateus 5.3.)


Gito
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Não temas, pequenino!

A Doce-Revolução

Está insuportável

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