quarta-feira, 30 de maio de 2012

Campanha de desopinionização



Numa verdadeira democracia o único princípio mais fundamental que a liberdade de expressão deve ser, naturalmente, a liberdade de pensamento. O direito da outra pessoa se expressar termina onde começa o seu direito de pensar por si mesmo.

Se você refletir bem, verá que quando expressa abertamente a sua opinião você está tacitamente condenando a opinião da pessoa que discorda de você. Está, na melhor das hipóteses, causando constrangimento; na pior, está coagindo um agente livre aNada é mais tendencioso do que uma opinião. alterar suas próprias crenças e valores em favor de uma opinião alheia – e o que é pior: a sua.

Nada é mais tendencioso do que uma opinião. O paradoxo da democracia, portanto, está em que todas as vezes que emite uma opinião você está ferindo a liberdade de pensamento de outra pessoa.

A fim de resolver esse problema, em países mais civilizados que o nosso a liberdade de expressão já foi totalmente suprimida em favor da liberdade de pensamento. Para que todos sejam livres para pensarem como quiserem, ninguém deve ter a liberdade de expor a sua opinião para quem quer que seja.

Visto que nada é mais perigoso do que uma opinião errada, e nada é mais afrontoso à inalienável liberdade de pensamento do ser humano que ser submetido a uma opinião contrária à sua, cabe ao governo livrar os cidadãos desse constrangimento. Tendo em vista a sereníssima e recente legislação que preconiza o desarmamento da população civil, considero pertinente dar-se início a uma campanha paralela de desopinionização da sociedade brasileira. 

O governo, antes de se importar com ninharias como as armas de fogo, deveria dar prioridade a impedir a circulação desenfreada de opiniões, argumentos e ideias – que consistem, como se sabe, na verdadeira origem de toda discórdia e de toda violência. Antes do desarmamento deveria vir a desopinionização. 

Se tudo acontecer como prevejo, a nova lei vedará o porte de opiniões por civis, com exceção para casos onde há ameaça à vida da pessoa. Somente poderão andar munidos de opiniões os responsáveis pela garantia da segurança pública, integrantes das Forças Armadas, policiais, agentes de inteligência e agentes de segurança privada. E civis com porte concedido pela Polícia Federal.

Quem for apanhado empunhando sua opinião sem o devido porte será preso. O porte ilegal será crime inafiançável. Só pagará fiança quem for pego expressando opinião de uso permitido e estando registrada em seu nome. Se o porte ilegal for de opinião de uso restrito, além de ser crime inafiançável, o réu não terá direito a liberdade provisória. O mesmo tratamento terá quem praticar a propagação ilegal de ideias e o tráfico internacional de opiniões.

As opiniões apreendidas ou entregues pela população serão destruídas pelo Comando do Exército.

Das opiniões que já expressei livremente, esta deverá portanto ser a última. Apenas a sua liberdade de pensamento vale que eu cale a boca.
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Paulo Brabo é ilustrador, escritor e blogueiro.
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segunda-feira, 28 de maio de 2012

Em Vergonha



Fim de tarde. Um dia diferente para aqueles meninos e meninas, de pés cansados, pés descalços, pés trincados pela poeira  vermelha, do chão batido, do caminho entre a casa e a escola... 

Para esses pés, mãos amigas...

Mãos que se doam...

Mãos que lavam...

Mãos que calçam...

Mãos solidárias...

Abandonar o chinelinho gasto para calçar um tênis confortável, doado por corações generosos, traz alegria, anima o coração, aquece a alma dos  pequeninos.... mas sobretudo daqueles que se dispõem a servir em amor...

Mãos que abraçam a vergonha e a culpa...

Nos campos de concentração de Auschwitz, aqueles que conseguem sobreviver à tragédia, provam de uma inexplicável vergonha... Uma vergonha, nutrida pelo sentimento de culpa. Culpa? Vergonha? Por que haveria de se envergonhar aqueles que sobreviveram? A quem compete julgá-los?

O embaraço do sobrevivente é a impossibilidade de superar a vergonha...

Vergonha e culpa por assistir a destruição dos outros, sentindo, contra qualquer julgamento, que deveria ter intervido, sentindo-se culpa por não tê-lo feito e, acima de tudo, “sentindo-se culpado por ter frequentemente ficado feliz por não ter sido ele a morrer, uma vez que não se tinha o direito de esperar ser o único poupado” (B. Bttelheim)

Vivo, portanto, sou culpado... Uma aporia a que Wiesel compendiou, acrescentando logo depois: “Estou aqui porque um amigo, um companheiro, um desconhecido morreu em meu lugar”...

Primo Levi, sobrevivente dos campos de concentração, em um poema no qual tenta fugir da culpa que  o persegue, assim escreve: “ Você não defraudou ninguém, não espancou (mas teria força para tanto?), não aceitou encargos (mas não lhe ofereceram...), não roubou o pão de ninguém; no entanto, é impossível evitar. É só uma suposição ou, antes, a sombra de uma suspeita: a de que cada qual seja o Caim do seu irmão e cada um de nós (mas desta vez digo “nós”num sentido muito amplo, ou melhor, universal, tenha defraudado seu próximo, vivendo em lugar dele?

Calçar os pés desses pequeninos, desses meninos e meninas que vivem em campos de concentração a céu aberto - expressão de Edson Passeti para descrever os lugares de desolação onde prevalece a miséria extrema e o abandono do Poder Público – faz-nos companheiros de vergonha e constrangimento daqueles que sobreviveram à tragédia do Holocausto. 
 
Vergonha por saber que depois do tênis limpinho, farão o caminho de volta entre a escola e a casa, entre poeiras e esgotos fétidos e, em poucos dias, voltarão de pés descalços...

Vergonha por saber que este gesto ainda é imensamente menor do que a necessidade...

Vergonha por saber das privações que passam e agradecer: “Senhor, obrigada porque não sou eu”...

Oh, Deus, que essa vergonha nos anime à culpa necessária para continuarmos a nos constranger com o Seu Amor... incomparavelmente maior...
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Vanessa Portes é pedagoga e doutoranda em História pela Universidade Federal de Uberlândia. Coordenadora pedagógica, desenvolve pesquisas sobre as famílias dos encarcerados.


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Unha Encravada

Sem-teto são unha encravada no centro de São Paulo, diz Mano Brown


Cinco anos após um show que terminou em pancadaria na praça da Sé, o grupo de rap Racionais MC's volta sua artilharia para o centro de São Paulo. 

É terça à noite, e Mano Brown, KL Jay, Edi Rock e Ice Blue estão na rua Mauá, 340, ao lado da Estação da Luz. O que um dia foi o Hotel Santos Dumont parece, para quem vê de fora, uma edificação em ruínas. 

O líder do Racionais sobe num tablado, colocado no pátio central do prédio, e se dirige às famílias de movimentos de sem-teto. 

"Para eles [poder público], o ser humano é um mero detalhe. Não é o povo deles que está aqui, que vai ser despejado!" Todos aplaudem, inclusive donas de casa que assistem à movimentação da janela de seus dormitórios. 

Brown decidiu gravar o clipe da música "Marighella" --sobre o guerrilheiro comunista Carlos Marighella (1911-1969)-- num local com todos os ingredientes para se tornar um novo Pinheirinho --só que, dessa vez, no coração da metrópole, numa região sob disputa política por conta do projeto Nova Luz e das recentes operações anticrack. 

Segundo ele, a gravação foi a maneira encontrada para apoiar as mais de 1.300 pessoas que moram no local há quase cinco anos. A Justiça determinou neste mês a reintegração de posse, cuja data será definida em julho. 

Embalados pelo discurso de Brown, os integrantes do Racionais e o rapper Dexter emendam um pocket show de luxo. Hits como "Nego Drama" e "Vida Loka (Parte 2)", pelos quais se costuma pagar alto para ouvir em clubes de "playboys", jorram um atrás do outro para os sem-teto. 
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Mano Brown canta a música "Marighella" em ocupação na região da Luz, no centro de São Paulo
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Folha - O que veio fazer aqui?
 
Mano Brown - Eu já vinha acompanhando o caso da ocupação pelo noticiário. Estava indiretamente engajado, e o pessoal do movimento vinha falando que a gente precisava gravar aqui, porque aqui é onde estão as ideias do Marighella. 

Como foi gravar na Mauá?
 
A ficha ainda não caiu. Eu já tive oportunidade de cantar falando das coisas dentro da coisa em si, como na casa de detenção. A gente fez a música 'Diário de Um Detento" e cantamos dentro da detenção [Carandiru], antes dela cair. Foi mais ou menos como hoje aqui. O Marighella falava sobre isso: reforma agrária, divisão das terras, justiça social. E aqui é como se fosse a unha encravada da cidade. É um problema que eles [poder público] não querem, não têm sensibilidade para resolver como deveriam. 

Como vê as ações recentes aqui na cracolândia?
 
Isso se chama especulação imobiliária. Já fizeram isso em São Paulo no começo do século 20. Fizeram isso no Rio de Janeiro, no Bronx, em vários lugares. É um lance racial. São Paulo foi forjada assim. O que a gente tá vivendo aqui é resquício da época da escravidão, são as mesmas fórmulas. Eles querem "limpar", sumir com o problema, e não resolver.
Acho que eles [sem-teto] têm que lutar mesmo. Não tem que demarcar território para A, B ou C. Se eles estão vivendo aqui, eles têm que continuar aqui. E o rap deve ajudar. Eu sei que eu tenho um peso e que eu posso colaborar. 

E a prisão do rapper Emicida em Belo Horizonte?
 
O Brasil está em transição. O Brasil não sabe se é um país moderno ou se ainda está em 1964. Essa geração da direita... eles falam que não existe direita, mas existe direita. Kassab é de direita, Alckmin é de direita, certo? Eles falam que não, mas têm o mesmo modus operandi dos caras da antiga, de usar a força, de usar o poder e de passar para frente o B.O. para outro resolver. 

Acha que essa causa da Ocupação Mauá vai conseguir apoio da população de São Paulo?
 
A sociedade primeiro tem que se sensibilizar. São Paulo é uma terra em que as pessoas são muito individualistas. Usa-se o termo reacionário, né? Grande parte da população vê eles [sem-teto] como um problema e prefere se livrar deles usando o sistema. Isso é uma coisa bem de São Paulo. A pessoa cai aqui, você passa por cima e vai embora. Isso é São Paulo.
Quem mora lá [na periferia] fica isento de muita coisa, tem um lugar reservado, mas fica longe de tudo. E aqui eles estão perto de tudo --e isso tem um preço. Estar perto do progresso tem um preço. Então querem cobrar esse preço deles. Você não tem direito de estar perto do hospital, da estação de trem, do metrô, você não tem direito de estar a cinco minutos do trabalho. Você tem que estar lá no fundo, onde as pessoas que não têm direito estão.
Ninguém é dono de São Paulo e o paulista não é dono de São Paulo. O brasileiro é dono de São Paulo, como é também dono da Bahia, dono de Minas Gerais... 

O que acha da Comissão da Verdade?
 
Tem que fazer justiça mesmo. Tem que buscar o pé da fita mesmo, como dizem lá na minha quebrada, e tem que punir quem tem que ser punido. Se é que eles estão vivos ainda. Vai punir quem? Quem tá vivo para ser punido? Igual o [ditador chileno Augusto] Pinochet, que foi preso com oitenta e tanto. Vive bem, dorme bem, come bem, aí vive 90 anos. E o trabalhador mesmo... 

O espaço do rap na Virada Cultural diminuiu. Isso tem a ver com o show do Racionais de 2007, na Sé?
 
Com certeza, isso daí tem a ver com o Kassab. 

Você acha que a Prefeitura de São Paulo ainda não superou, não esqueceu?
 
Não esqueceu, mas é lógico que o Racionais é a ponta do iceberg. O Racionais é um grupinho, é grão de areia perto do problemão que eles têm que enfrentar. Eu não ligo pelo rap, eu não ligo pelo estilo musical. Eu brigo por uma raça, por um povo. Não está acontecendo só com o rap isso. Os caras estão invadindo as festas nos bairros, os pancadões que o pessoal faz na rua. Não tem carnaval na Bahia, que é popular, que acontece na rua? Não tem carnaval na rua lá no Rio? E por que não pode ter em São Paulo?
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Hotel abandonado no centro, onde moram mais de 1.300 sem-teto, virou cenário de clipe do Racionais
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JOÃO WAINER
EDITOR DE IMAGEM
DIÓGENES MUNIZ

EDITOR-ADJUNTO DA TV FOLHA

FOTOS: Marlene Bergamo, Carlos Cecconello/Folhapress  
FONTE: FOLHA
 
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terça-feira, 22 de maio de 2012

Educação e Mercado

  A Educação e a Ordem Mercadológica

  Não é preciso ser um pedagogo ou estudioso da educação para saber da importância que a educação exerce na vida de uma família, de uma comunidade, de um povo.

 

O que não se sabe, por vezes, é que há menos de uma década a mercantilização dos serviços, antes, direitos educacionais, tem-se constituído de forma bastante acelerada. Basta ver a grande expansão da educação privada lato e scrictu sensu; a crescente privatização interna das instituições públicas; a estagnação do financiamento público; o surgimento de novos modelos empresariais provedores de serviços educacionais com fins lucrativos orientados pelo mercado; a submissão dos sistemas de ensino, inclusive os públicos, às políticas agendadas pelo Banco Mundial, FMI dentre outros, além da indústria dos dispositivos pedagógicos extra-escolares (softwares etc).

O debate em torno do público e do privado tem-se intensificado. Embora nunca tenha saído do cenário educacional, agora se sofistica , atribuindo ao estatal as mazelas de ineficiente, corrupto, cobrador de impostos, opressor e anti-democrático, enquanto que o privado é portador do bem, do belo, da virtude, da liberdade individual, da eficiência, do dinamismo, da democracia, da autonomia. Esqueceu-se que, em nosso país, especificamente, o Estado tem sido desqualificável porque se tornou privado. Um Estado que tem feito do campo educacional a mais nova fronteira de expansão do capital da dita Sociedade Informacional.

Em meio a esse cenário desencantador que reflete dualidades, ambigüidades e contradições, o que dizer das instituições de ensino confessionais e dos estabelecimentos de ensino com propostas pedagógicas orientadas por princípios bíblicos? Têm elas se adequado à lógica mercadológica ou atuado no campo dos direitos, da cidadania?

O que se percebe é que muitas instituições de ensino com roupagem de “confessional” despem-se quando o assunto é “lucro”. Faltam em suas propostas pedagógicas a visibilidade de projetos de extensão que atentam para a solidariedade, para a amorosidade, para o conhecimento sobre Deus e seus propósitos.

É preciso que tais instituições priorizem a educação não enquanto produto de venda ou troca, não enquanto chave mágica para a superação de classe. Ao contrário, seu valor e importância devem ser ressaltados pela condição de consciência (política, moral, ética, filosófica e espiritual) que pode proporcionar a todos os que a ela tiverem acesso – consciência esta indispensável para que haja mudanças profundas na estrutura social moderna e excludente que temos ainda vivenciado.
Cabe aos coordenadores pedagógicos e líderes cristãos inseridos nestes estabelecimentos confessionais de ensino – seja pelo viés dos centros acadêmicos ou de escolas de educação básica – reverem seus conceitos, seus valores, suas metas e propósitos frente ao que esperam dessa educação para não se tornarem escravos e alienados no seu próprio ambiente de trabalho.

Libertar-se e desalienar-se implica em conscientizar-se do valor da educação cristã e lutar contra essa sociedade que transforma até o imaterial em moeda de troca.


Vanessa Portes é pedagoga e doutoranda em História pela Universidade Federal de Uberlândia. Coordenadora pedagógica, desenvolve pesquisas sobre as famílias dos encarcerados.
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terça-feira, 15 de maio de 2012

A Nova Ortografia



SUGESTÃO POÉTICA para o acordo ortográfico e outros acordos (Sergio Vaz)


*Aprecie com moderação

Este acordo é meramente sugestivo; portanto restringe-se à língua que o povo fala nas ruas, não afetando nenhum aspecto da língua escrita (a academia pode ficar tranquila). Ela não elimina, infelizmente, as diferenças e injustiças que através da ortografia são observadas nos países que tem a língua, ao qual o povo não tem direito de aprender, como idioma oficial, mas é um passo em direção à pretendida unificação das idéias das pessoas que realmente amam este país.

O alfabeto passa a ter 26 letras. Foram reintroduzidas as letras k, w e y.

O analfabeto completo passaria a ser aquele que sabe juntar as letras e não junta, e sequer ajuda os outros juntarem. E o que é pior, muitos deles ainda se julgam letrados.

A B C D E F G H I J K L M N O P Q R S T U V W X Y Z

*Vale também o improviso.

TREMA

Não se usa mais o TREMA. Em hipótese alguma.

Está decretado em todo lugar deste país, que diante de qualquer injustiça, covardia e falta de respeito com a população, a palavra de ordem seria: não TREMA!

Exemplo:

Como era: agüentar
Como fica: Bateu levou.

*Atenção: o Trema aparece apenas nas palavras estrangeiras e no passado sombrio da ditadura.

MUDANÇAS NAS REGRAS DE ACENTUAÇÃO E OUTRAS REGRAS.


1. ESCOLA na periferia tem muito assento, de 40 a 45, quando o o ideal é ter 20 ou 25.
E para compensar, um aumento no número de assentos nas universidades públicas do país.

2. PROFESSOR deixa de ser uma palavra para ser um sentimento, e de zero à esquerda, como quer o governo, passaria a valer nota dez, e com mais zeros à direita.

3. EDUCAÇÃO passa a ser uma equação matemática com investimento ao cubo (ex: 2+2=5), sem pedagogia com raiz quadrada.

Ex: Criança + escola de qualidade = nação com futuro.

4. CRIANÇA passa a ser um verbo praticado sem miséria, descaso ou abandono. Com direito a casa, comida e cidadania.
A Criança passa a ser uma super-proparoxítona com assentos em todas as etapas de sua vida. E todas as crianças, sem nenhuma exceção, têm o direito de usar os assentos da mesa para comer o objeto direto, nesse caso a comida digna, com direito à sobremesa, e tanto faz de for geléia com acento ou sem acento.
E caso alguma autoridade contestasse, que o povo nas ruas lhe tirem o assento. Sem acento no Dó, nem piedade.

5. A palavra DESEMPREGO não pode mais ser pronunciada nas portas das fábricas, e o EMPREGO não pode mais estar ligado à palavra escravidão, para que os homens e as mulheres não sejam escravos dos ditongos cujos do poder, e para que os trabalhadores e trabalhadoras não andem mais naquela tanga danada, em que vivem atualmente os assalariados dos subúrbios brasileiros.

*Outra coisa, as palavras 'não', '' e 'vagas', jamais poderão ser escritas juntas.

6. CORRUPÇÃO deixa de ser apenas uma palavra com 9 letras para ser um crime, punido com 90 anos de prisão.

7. O SUJEITO decente não pode, nem deve ser prejudicado. Para que isso se confirme, a justiça que é cega, ficaria terminantemente proibida de fazer transplante de córneas.

8. As Palavras Amizade, Bondade, Coragem, Caráter e Amor, devem ser suprimidas do dicionário e escritas pelos nossos corpos, como uma segunda pele, para que o suor dignifique-as, toda vez que a gente as pronunciar.
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9. Pobreza; nem com Z, nem de espírito.

10. Ficam banidas as palavras "Toxítonas" que servem apenas para o privilégio de poucas pessoas, que acham todas as outras "Para-oxítonas".

11. Arrogância e Violência deveriam ter dois "esses", que era para identificar o imbecil que as praticassem.

USO DO HÍFEN.

O Super-homem é um super-bobo. O Ser humano passa a ter mais poderes.

As demais palavras devem ser consultadas com mais seriedade no guia prático da nova ortografia.



*do livro "Literatura, pão e poesia" Global Editora
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terça-feira, 8 de maio de 2012

O Rebelde Desconhecido

O Rebelde Desconhecido é uma das pessoas mais influentes do século XX.

A imagem de seu protesto silencioso e solitário, pelas câmeras do fotógrafo Jeff Widener, da Associated Press, ganhou os principais jornais do mundo.


O Protesto na Praça da Paz Celestial (Tian'anmen) em 1989, mais conhecido como Massacre da Praça da Paz Celestial, ou ainda Massacre de 4 de Junho consistiu em uma série de manifestações lideradas por estudantes na República Popular da China, que ocorreram entre os dias 15 de abril e 4 de junho de 1989. O protesto recebeu o nome do lugar em que o Exército Popular de Libertação suprimiu a mobilização: a praça Tiananmen, em Pequim, capital do país. Os manifestantes (em torno de cem mil) eram oriundos de diferentes grupos, desde intelectuais que acreditavam que o governo do Partido Comunista era demasiado repressivo e corrupto, a trabalhadores da cidade, que acreditavam que as reformas econômicas na China haviam sido lentas e que a inflação e o desemprego estavam dificultando suas vidas. O acontecimento que iniciou os protestos foi o falecimento de Hu Yaobang. Os protestos consistiam em marchas (caminhadas) pacíficas nas ruas de Pequim.

Devido aos protestos e às ordens pedindo o encerramento dos mesmos, a decisão tomada pelo governo foi suprimir os protestos pela força, no lugar de atenderem suas reivindicações. Em 20 de maio, o governo declarou a lei marcial e, na noite de 3 de junho, enviou os tanques e a infantaria do exército à praça de Tiananmen para dissolver o protesto. As estimativas das mortes civis variam: 400 a 800 (segundo o jornal estadunidense The New York Times), 2.600 (segundo informações da Cruz Vermelha chinesa) e sete mil (segundo os manifestantes). O número de feridos é estimado em torno de sete mil e dez mil, da acordo com a Cruz Vermelha. Diante da violência, o governo empreendeu um grande número de arrestos para suprimir os líderes do movimento, expulsou a imprensa estrangeira e controlou completamente a cobertura dos acontecimentos na imprensa chinesa. A repressão do protesto pelo governo da República Popular da China foi condenada pela comunidade internacional.

No dia 4 os protestos estudantis se intensificam muito. No dia 5 de junho, um jovem solitário e desarmado invade a Praça da Paz Celestial e anonimamente faz parar uma fileira de tanques de guerra. O rapaz, que ficou conhecido como "o rebelde desconhecido" ou o "homem dos tanques" foi eleito pela revista Time como uma das pessoas mais influentes do século XX. Sua identidade e seu paradeiro são desconhecidos até hoje.

Repare na foto antes da foto, o rebelde desconhecido no canto esquerdo: (CLIQUE PARA AMPLIAR)


Dica da Ludmilla Barros

Saiba mais sobre o Ptotesto na Praça da Paz Celestial AQUI
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quinta-feira, 3 de maio de 2012

Tocou Raul?

Por Marcelo Rubens Paiva

Algum músico que já era lenda antes de morrer tem recorrentemente o nome gritado em shows de outros músicos?

Algum músico tem uma composição pedida rotineiramente quando, numa aglomeração, o silêncio se faz, apesar de ter morrido há 23 anos?

Algum político ou artista brasileiro tem um dia dedicado a ele, em que fãs se fantasiam como ele, circulam pelo centro de São Paulo e cantam numa manifestação essencialmente popular e espontânea?

Não só em shows, mas em casamentos, baladas, batizados, passeatas, no intervalo entre músicas, na indecisão de como animar uma festa, o grito é sempre entoado, como um ato de rebeldia e desobediência:

“Toca Raul!”

A obra de Raul Seixas sobrevive, continua contemporânea, e pode ser revista no documentário O Início, O Fim e O Meio, de Walter Carvalho.

O legado de Raulzito não é apenas a mistura do pensamento maquiavélico (“o fim justifica os meios”). É bem mais profundo e perspicaz.

Apesar de ele ter anunciado: “Eu não sou besta pra tirar onda de herói. Sou vacinado, eu sou cowboy. Cowboy fora da lei. Durango Kid só existe no gibi. E quem quiser que fique aqui. Entrar pra história é com vocês.”

Mas entrou, ao fundir o rock com o baião, sem as sutilezas dos seus conterrâneos tropicalistas. Raul foi a tropicália que tocou no rádio.

Propôs reflexão e sublevação no quartinho da empregada, na tela da TV, no Chacrinha e nos shows em ginásios.

Fundiu o alcance vocal de Elvis com o de Luiz Gonzaga e provou a semelhança entre o produto da corte e a improvisação da colônia, entre deus e sua cria.

A primeira grande aparição foi no Festival Internacional da Canção (1972), provocando a bossa nova e o utopismo messiânico da época: “Let me sing my rock’n'roll. Não vim aqui tratar dos seus problemas, o seu Messias ainda não chegou. Eu vim rever a moça de Ipanema e dizer que o sonho terminou.”

Depois, Mosca na Sopa (1973), quando a ditadura brasileira unificada combatia em todos os fronts.

Quem não entendia a ameaça debochada do roqueiro maluco, dançava como um alucinado nas festinhas infantis, que era o meu caso: “Eu sou a mosca que perturba o seu sono, eu sou a mosca no seu quarto a zumbizar.”

Opositores no pau de arara. Jornais e revistas enquadradas pela censura. Artistas silenciados pelo exílio e ameaças. E o roqueiro entortava a cabeça da repressão política: “Não adianta vir me dedetizar, pois nem o DDT pode assim me exterminar. Porque você mata uma, e vem outra em meu lugar.”

Desta vez, a mistura era o samba de roda baiano, o canto para os orixás e afoxé, com rock pesado.

No mesmo disco, a música Ouro dos Tolos, o maior deboche do projeto Brasil Grande e do Milagre Brasileiro, um alerta existencialista à classe média emergente brasileira.

“Eu devia estar contente, porque eu tenho um emprego, sou um dito cidadão respeitável e ganho quatro mil cruzeiros por mês.”

O regime conseguia o selo de excelência de 100% de autoritarismo- resistência armada dominada, opositores silenciados. O empresariado e a população de bolsos cheios pareciam felizes. Médici tinha altos índices de aprovação.

Não restava nada no campo da contestação: quem sobreviveu estava fora do País ou de si, dopado, maluco beleza.

Quando o Regime entulhou as TVs com propagandas de Brasil Grande, difundindo os feitos do crescimento recorde, em que o dinheiro emprestado do exterior estava barato, e o País criou infraestrutura suficiente para a importação de parques industriais, ele compôs:

“Eu devia estar feliz, porque consegui comprar um Corcel 73… Eu devia estar sorrindo e orgulhoso por ter finalmente vencido na vida. Mas eu acho isso uma grande piada e um tanto quanto perigosa.”

Perguntado se ele fazia música de protesto, respondia de bate pronto: “Faço raulseixismo.”

O verso que Caetano canta de boca cheia do documentário, palavras que propositalmente não cabem na melodia, um pré-rap, contém o mais profundo dos sentimentos literários, a falta de sentido da vida: “Eu devia estar feliz pelo senhor ter me concedido o domingo pra ir com a família no Jardim Zoológico dar pipoca aos macacos. Ah!, mas que sujeito chato sou eu, que não acha nada engraçado, macaco, praia, carro, jornal, tobogã. Eu acho tudo isso um saco…”

A maior ironia é que a música foi composta em cima de acordes de Detalhes, do neo conformista Roberto Carlos, artista que deixava a irreverência do rock para se acomodar nas plumas de uma causa mais romântica.


Em 1974, os ideais libertários de Maio de 68 desembocaram num fracassado projeto armado de terrorismo isolado. Baader Meinhof, Brigadas Vermelhas, ETA, IRA, OLP confundiam e assustavam a juventude mais do que agregavam. A utopia foi questionada.

Raul lançou com Paulo Coelho a Sociedade Alternativa, uma terceira via, que defendia o direito de ter riso e prazer. No manifesto, pregavam:

“O espaço é livre. Todos têm direito de ocupar seu espaço. O tempo é livre. Todos têm que viver em seu tempo e fazer jus às promessas, esperanças e armadilhas. A semente é livre. Todos têm o direito de semear suas ideias sem qualquer coerção da inteligência ou burrice. Não existe mais a classe dos artistas.”

“Todos nós somos capazes de plantar e colher. Todos nós vamos mostrar ao mundo e ao Mundo a nossa capacidade de criação. Todos nós somos escritores, donas de casa, patrões e empregados, clandestinos e careta, sábios e loucos. E o grande milagre não será mais ser capaz de andar nas nuvens ou caminhar sobre as águas. O grande milagre será o fato de que todo dia, de manhã até a noite, seremos capazes de caminhar sobre a Terra.”

O governo Geisel não entendeu muito bem o que propunha esta sociedade com pinta de subversiva, prendeu os dois e os mandou para o exílio.

Ele preferia ser uma metamorfose ambulante a ter opinião sobre quase tudo. Mas não conseguia deixar de ver, pensar, propor e rediscutir os rumos da arte e da política do seu País.

Com metafísica, espiritismo, antropofagia, de mãos dadas com o povo, ele era o nosso sacrifício, a placa de contramão, a vela que acende, a luz que se apaga, a beira do abismo, o tudo e o nada, raso, largo, profundo, os olhos do cego, e a cegueira da visão.

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quarta-feira, 18 de abril de 2012

Como ver e não ver?



Muito mais que viver é preciso se dar
Muito mais que sentir é preciso lutar
Repartir o pão, estender a mão
Transformando a fé numa grande missão.

Como ouvir e negar? Somos todos mortais.
Como ver e não ver? Somos todos reais.
Muitos tem tão pouco e outros tem demais
E perante Deus todos somos iguais.

Trecho da música "Todos somos iguais" de João Alexandre



Crianças estão deixando de vir à Escola por conta da falta de sapatos.

Algumas, às vezes faltam, por causa de má alimentação, mesmo que na escola tenha uma boa merenda e isso seja um dos motivos para que muitas frequentem as aulas.

Vir de barriga vazia é um desafio! Você sabe do que eu estou falando.

Complicado mesmo é vir todos os dias.

E descalço.

Agora, com o coral infantil, algumas delas deixaram de vir aos ensaios.

Têm medo das apresentações. Não terão tênis para se apresentar e estão envergonhadas.

Recebemos suporte para o uniforme e alimentação do coral, mas não suprimos a todos. São mais de 900 alunos, muitos com sérias dificuldades.

Nem todos podem estar no coral. Não temos efetivo, nem espaço. Demos prioridade para 40 alunos da tarde, os que foram indicados pelos pedagogos com dificuldades de aprendizado.

Temos inclusive dois alunos que não falam.

Não é que não falam por não saber falar ou por problemas com a fala ou surdez, mas apenas deixaram de falar.

Mas cantam.

E ouvimos as vozes.

Um dos meninos do coral, um grande talento, é afinadíssimo e ritmado, não quer se apresentar. Há dias que não vinha aos ensaios. Não tinha tênis. Hoje ele apareceu muito envergonhado, com um tênis muito maior do que o seu pé. É emprestado do primo.

Estamos buscando soluções. Queremos comprar tênis para todos, para as suas apresentações.

Enquanto eu pensava nisto, um outro amiguinho chegou empurrando sua bicicleta. Vinha descalço.

Ele que há alguns dias, me fez rir, quando veio contar todo sorridente e tirando sarro da situação, que o nome do seu tênis (Um crocks na verdade - sandália de borracha) se chamava "Ar Condicionado" pelo tanto de furos que tinha.

Hoje, a sua sandália estourou o último remendo. Sem conserto. Ele veio descalço.

E eu fui para o intervalo, olhando os pés.

Muitos são os chinelos remendados e os pés descalços.

Inquieto, fui passear pelos bairros dos alunos que estudam aqui. Muitas casas são casebres e barracos. Alguns alunos moram no lixão em barracos de lona.

Agora entendo por que muitos pais vêm desesperados para buscar seus filhos a qualquer ameaça de chuva. Não há infraestrutura, só lama e a distância é enorme, o que deve complicar durante a chuva.

Ainda mais, descalços.

Os cadernos molham.

Tudo vai por água abaixo.

E, quando mudei para Uberlândia, as pessoas diziam com ar de alívio que aqui não existiam favelas.

Bem, não há favelas no centro da cidade, como nos grandes centros... ou misturada à pontos turísticos como no Rio de Janeiro ou São Paulo.

Mas há um muro que divide esta cidade. Um muro invisível. Pois os pobres são jogados na periferia. Dezenas de quilômetros longe do grande centro, da grande loja, do grande estádio de futebol, do grande Parque do Sabiá, dos grandes clubes de atividades esportivas, das grandes igrejas com pregações sobre o homem pobre de Belém, das grandes faculdades onde profissionais envolvidos com o pensamento marxista ou anarquista, sequer pisaram fora das salas de aula e ficam teorizando enquanto fingem não saber que há um mundo fora da teoria que padece enquanto eles declamam a salvação dos pobres do alto de suas vaidades intelectuais.

São 18.000 pessoas no entorno da escola. 18.000 seres invisíveis, pois os mais centralizados não os veem, não sabem deles.

Muitos não veem esta realidade. Ela existe, mas é invisível. A indiferença tapa os olhos, cega.

Nem a Revista Veja percebeu. Vê mas não enxerga. Publicou numa edição de 1987, Uberlândia como uma cidade próspera e sem conflitos.

Muitos aqui ainda veem assim. Até quando?

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