sexta-feira, 28 de março de 2014

O mundo de pernas pro ar



A moça é estuprada e leva a culpa. Usa roupas provocantes.

Na pesquisa a maior parte das mulheres concordam que a culpa é da roupa.

O ladrão de tomate na feirinha é condenado à morte.

O do mensalão é libertado, via vaquinha.

A vaquinha para ajudar no tratamento das crianças com câncer não sai do zero.

E só dizem mensalão no singular. É no plural. Já que foram tantos!

Se fosse fazer uma limpa na política, sobraria uns 10. Sem exagero...

Mas qual político está limpo para fazer uma limpa?

Amarram o ladrão pretinho no poste!

Encocham a bunda da moça no metrô.

Reclamam que o idoso não morre logo.

Que o aeroporto parece rodoviária.

Que a empregada já não dorme em casa.

Que o índio vive brigando por floresta.

A polícia, agentes da proteção, vigiam e punem. 

Precisamos rogar aos céus a proteção contra os agentes de proteção.

O cacetete canta no lombo do trabalhador que está na hora certa no lugar errado.

Metade do Brasil é feito de "Lugar errado."

Vigiam pouco e punem muito!

Dizem "denegrir", "judiar", e batizam bairros de "Higienópolis." Polis = Cidade. Cidade da higiene. Cidade higiênica. Bairro projetado e batizado para ser limpo da corja dos pobres sujos.

Nomeiam viadutos com nomes de torturadores. De estupradores. De impostores. 

Celebram as datas do terror! Fazem feriados que comemoram o início de guerras.

Organizam marchas em nome de Deus. Para Deus. Mas nunca O convidam!

A Copa vem aí. 

Há 3 anos era festa.

Mas desde as manifestações que a gente não vê muita graça...

Até a bola rolar.

Lançamos a palavra numa rede social da virtualidade.

No chão da vida a gente só lança a lança que fere e mata.

Ou diz que não. Mas não faz nada para evitar que lancem.

Omissos, invertemos as bolas...

Damos valor ao post. 

Uma curtida equivale a um sorriso.

Uma compartilhada equivale a um abraço.

Curtida e compartilhada é como um beijo de língua.

Os vestibulares escolhem as melhores cabeças.

Que mostram para o que vieram na hora dos trotes com tortura, humilhação, racismo e agressões.

Os teólogos citam frases de livros mas não os lêem por não ser sacro.

Lêem o Livro Sagrado que de tão sacralizado já não gera Vida na vida.

Respondem as aflições do outro com frases prontas e versículos.

A moda é ser reaça!

A moda é ser coxinha!

A moda é ser militante de uma causa qualquer.

Meninos de 15 anos pedem a volta da ditadura. Com bigodinho sob o nariz.

"Salvem os golfinhos!" Diz o adesivo pregado no carro do rapaz que atropela um casal na calçada por dirigir embriagado depois da manifestação.

Já não há nomes, mas "nicks".


Não há alguém, mas "perfis".


Não há fotos, mas "avatar".


Não há endereço, só o eletrônico.


Não há dinheiro, só de crédito.

Já não há chuva, mas chuva ácida.

Já não há sociedades, mas sociedades anônimas.

Empresas em lugar de nações.

Aglomerações em lugar de cidades.

Já não há pessoas, mas públicos.

Não há realidades, mas publicidades.

Não há visão, mas sobra televisão.

Para elogiar uma flor, se diz: Parece de plástico.¹

O templo virou pedra.

Pessoas viraram consumidores.

Oferta virou lei.

Tentam transformar Deus em banqueiro.

Há cada vez mais carros que se cruzam do que pessoas que se encontram.

Os States invadem um país para procurar bombas que eles forneceram anos antes.

Matam populações inteiras com a desculpa de procurar armas de destruição em massa.

Na África, acorrentam jovens nos pilares da igreja para que ele receba a libertação.

Matam crianças que acusam de serem bruxas.

Cobram caro para dar o que é de graça.

Reúnem milhares para enganar a todos de uma vez só.

Chamam a isso de avivamento.

Jogam latinha na rua para reclamar do governo na hora das enchentes.

Lutam contra a corrupção mas não assumem o gol irregular do atacante do seu time do coração...

E cortam filas...

E mentem...

E ficam com o troco a mais que por engano a atendente da padaria entregou.

E agradecem a Deus de todo o coração por essa bênção merecida.

Afinal de contas, não é mole arranjar um trocado.


E o mundo é dos espertos.

Olhe a sua volta, saia às ruas e veja.

Há um fenômeno, desde sempre... mas parece que se agravou por estes dias:

O mundo está ao contrário.

Será que alguém reparou?


Gito



1 - Eduardo Galeano. Patas arriba. La escuela del mundo al revés. Siglo Veintiuno Editores, 2012.
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quarta-feira, 26 de março de 2014

Ei Tio



O mano de caminhada Fábio FG, lá do Rio, rapper, fez uma música sobre a situação das crianças bruxificadas na Nigéria.

Na letra de "Ei Tio", Fábio conseguiu colocar a dor da criançada com muita rima e poesia.


Esse vídeo explica bem o fenômeno e também a ação do Caminho Nações em solo nigeriano. 

O Caminho-Nações é o braço humanitário do Movimento Caminho da Graça. Atua em diversas frentes no Brasil e no mundo. Saiba mais: www.caminhonações.com


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domingo, 22 de dezembro de 2013

Saudade não se explica

Nas despedidas, há sempre um vazio que invade o coração.
Parece que só na língua portuguesa existe a palavra "saudade".
Acho que ela é causadora desse sentimento de buraco no peito.
O Chico, não o nosso Chico do Caminho, o Buarque, disse poetizando que:

A saudade é o revés do parto.
É arrumar o quarto pro filho que já morreu.

Sim, ele conseguiu explicar a saudade.
Eu não.

Explicando para os pequenos o que é saudade

Hoje pela manhã tentei explicar o que é saudade para todas as crianças.
Elas me olhavam confusas.
Não bastasse meu inglês assotacado, falho e carregado de expressões, eu estava tentando explicar o que talvez elas nunca consigam entender muito bem em palavras, mas sabe quando o buraquinho toma o coraçãozinho.

Em inglês é um "miss you" meio pobre. Não carrega o significado da palavra saudade.

É que meus três meses aqui voaram. Na Nigéria três meses é pouco tempo para se fazer muito diante da lentidão de tudo.

O visto expira logo mais e minhas passagens estavam compradas antes de chegar aqui.

Alguns dos nossos pequeninos


Nesses três meses deu para fazer alguma coisa e deu principalmente para aprender muito a amar e ser amado.

Aprendi mais sobre a Graça de Deus, termo teológico que significa "favor imerecido" aqui nessa terrinha, com essas crianças, do que eu poderia aprender em qualquer seminário, com os melhores palestrantes e teólogos tentando explicar o que não se explica. 

Eu fui lá no orfanato para dizer tchau, com um buraquinho no peito. E adivinhem? Só graça e amor...

Todas voaram em mim, com abraços, beijos e... lágrimas.

Eu não chorei (só agora), fiz força para ficar firme, para que acreditem que eu volto logo. Se eu chorasse, elas duvidariam...

Falei a todos. Então chamei um a um. 

- Promisse, promete cuidar dos menores? Sim, uncle.

- Christopher, agora não só o Goodnews é seu irmão, você tem esses outros. Cuida deles, ok? Yes, uncle.

E foi recadinho por recadinho...

Até que chegou o Anifiok. Fui com a equipe no resgate deste pequenino que diziam ter espírito de bruxo. Depois de muitas surras, foi abandonado. Viveu no mato, comendo mandioca que arrancava da terra. Todo machucado. Um bracinho quebrado irrecuperável... o pai e o tio o torturaram.

Anifiok não quis saber de dar tchau. Sentou-se com a cabeça no meio das pernas. Eu disse a ele que a gente sempre volta. Que só precisamos ir para cuidar dos nossos lá no Brasil... 

- Anifiok, eu passei um tempo cuidando de vocês, agora vou lá cuidar de outros. Sou um cuidador. Eu não posso ficar aqui e deixá-los tristes, sem cuidado. Não é?

- Mas, tio, você vai voltar?

E aí olho prum lado está meu amigão Tunde. Ele que só riu e zoou, estava triste.

Fui sentar com ele. Não consegui fazer ele sorrir. Aí apelei e pedi para Deus: God, please... faça o Tunde saber que eu amo ele muitão e vamos voltar para cuidar dele. Abro os olhos, e ele tá rachando de rir do uncle... e disse com sorriso nos lábios: In Jesus name, amem!

Tunde, meu amigão


Aí a Marthinha... uma menina linda, tão sofrida! Olho para ela e os olhinhos estão cheios de lágrimas.

Martha e seu irmãozinho são novos entre nós. Apelei para a Gift. Ela já está conosco há um tempinho. Eu disse: Gift, fala pra Martha, quando o tio Léo promete voltar, o que acontece? E quando me mandaram embora do orfanato, eu falei que ia voltar por vocês, o que aconteceu?

Gift diz: Martha, eles voltam! E passou a falar em ibibio para convencer a amiguinha...

O mais difícil não é vir à Nigéria. Enfrentar as privações, a escuridão, os religiosos, as ameaças, a falta de muita coisa básica... difícil é sair da Nigéria, deixando para trás olhinhos marejados de quem só tem a gente para pedir socorro!

A Marthinha 


Coisa boa é saber que eu nunca posso dizer "Adeus". Até a mais triste despedida é apenas um "à Deus". Por causa da Graça, é sempre um "Até Logo"!

- Até logo, meninos.
- Até logo, tio Bundão.

Um sorriso foi a última expressão que eu vi antes do portão fechar.

Foi para isso que eu vim. Missão cumprida.

Que eles façam isso em memória de mim, muitos sorrisos e alegria, todas as vezes, até que eu volte.

Sorrisos e mais sorrisos!

Volto logo. Há muito por fazer. E eu acabo de começar...



Última vez em 2013 que escrevo de Eket, Akwa Ibom State, Nigéria.



Gito

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Não temas, pequenino!

A Doce-Revolução

Está insuportável

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