quinta-feira, 9 de maio de 2013

O olhar do outro



Ouvi cantarem sobre o Gladir.

Foi o Paulinho Alma. "Gladiar é sua lida", cantava.

Eu cantarolava suas canções, menino. Não sabia que eram dele.

Gladir tem o dom de colocar "em sua voz o nosso silêncio" como escreveu no Twitter o também poeta Fabrício Matheus.

Seu novo projeto, presta homenagem a homens e mulheres que marcaram sua existência. Gente como Martin Luther King Jr, Sadú Sundar Singh, Cora Coralina, Henri Nowen, Adélia Prado, Bonhoeffer, Corrie Ten Boom, entre outros.

Com poesia e doçura, Gladir consegue transportar-nos para o universo das melodias. Das cordas de seu violão saem canções que nos confronta a sermos imitadores destes que homenageia.

Seus legados não podem ser esquecidos.

E faz-se urgente, em dias frios e tristes, que re-conhecer pessoas cheias de luz, de afeto, de misericórdia, de mansidão.

Todas as canções deste novo projeto me marcaram com muita profundidade. Talvez porque eu compartilhe admiração sobre a vida de muitos deles.

A canção "Refúgio Secreto", feita em homenagem a Corrie Ten Boom e "Himalaia", para Sundar Singh, são muito significativas para mim.

Entretanto, "O olhar do outro" para John Woolman veio como um alento numa madrugada fria e triste.

Passou a ser, então, a mais querida canção do poeta Gladir. Dessas canções que passam a ser hino e de hino passam a ser bandeira.


É cruzar a fronteira e deixar-se levar
Pelo Vento ao deserto e ao chão
E ali achar o seu irmão
O perigo é não amar
A vergonha é não sonhar
O engano é não enxergar
O olhar do outro




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terça-feira, 7 de maio de 2013

Não matar não basta



Ouço esporadicamente alguém irritado com algum posicionamento teológico ou moral diferente dos seus, dizer: Pega a Bíblia e rasga então!

Como se ela não valesse mais como manual de correta conduta e fé, a ponto de ser rasgada.

Lembro-me do costume dos judeus que rasgavam as suas vestes, como sinal de pesar e do sumo sacerdote Caifás que simulou grande indignação e ultraje por rasgar suas vestes quando Jesus admitiu ser o Filho de Deus. (Mt 26:65) 

Mandar rasgar a Bíblia num ato de indignação parece com o sentimento do fariseu Caifás de rasgar as vestes.

Se não concordar com algo, mande rasgar alguma coisa.

Rasgue as vestes.

Rasgue a bíblia.

Mas nada de rasgar-se. Rasgar o sentimento de indiferença. Rasgar o ódio acumulado pelas desavenças. Rasgar o eterno embate sem fim das discussões sem proveito. E aprender a ouvir e debater com amor. 

Uma ideia jamais será maior que o próximo.

Ouço pessoas, que com ideias contrariadas por outros, dizem que já não os consideram irmãos.

Nesse sentido, para eles, irmão só é aquele que concordar.

Se discordar, passa a ser um conhecido indesejável.

E ainda encontram respaldo bíblico para tal tratamento de ultraje.

Por sinal, citar textos bíblicos não quer dizer nada em relação ao amor, muito menos que tal citação torna o citador coerente. 

O diabo citou a bíblia.

E o diabo disse a Jesus: 

Se tu és o Filho de Deus, joga-te daqui para baixo, porque está escrito: Ele dará ordens a seus anjos a seu respeito, e com a mão eles o segurarão, para que você não tropece em alguma pedra. (Mateus 4.5-7)

O diabo citou Salmos 91.

Ele conhece as escrituras.

Ele encontra versículos para justificar suas intenções.

Jesus o responde citando outro texto bíblico. O de Deuteronômio 6: Não ponha à prova o Senhor, o seu Deus.

A questão não é o embate de palavras sagradas.

O diabo as citou, elas não perderam significado, mas a sua intenção em citá-las era apenas como pretexto para a sua ideia de provocar Jesus.

Ele as citou para vencer o debate.

E por mais que as palavras fossem coerentes, sua intenção era má. Ele não passou a ter razão apenas pelo fato de ter citado a bíblia.

Citá-la, muitas vezes, não quer dizer muita coisa, se a intenção de citá-la é apenas como argumentação fria para promover uma ideia.

Sem amor, nada vale.

Sem amor, uma citação bíblica ou uma bula de remédio se tornam palavras sem significado!

Sem amor, pode existir debates em todas as línguas e dialetos dos homens e dos anjos, que será apenas como um sino que retine. Sem significado, apenas produz som.

O amor não coloca ninguém, por mais diferente que seja seu modo de pensar e agir, no rol dos excomungados para sempre. O amor é sempre insistente para a reconciliação, para a aceitação, para a tolerância.

Os seres que abrem mão do privilégio de amar se excomungam. E com eles arrastam multidões de solitários raivosos e desconfiados.

E ainda o fazem em nome de Jesus.

Mas não percebem que "se Jesus mandou amar os inimigos, quanto mais os diferentes!"

E tampouco compreendem que "Deus escolheu ser amado no próximo".

A Lei de Moisés, os dez Mandamentos, ensina: Não matarás.

Muitos cristãos agem segundo a Lei de Moisés e não à partir do aprofundamento da lei de Moisés feita por Jesus no Sermão da Montanha. Afinal, se são cristãos, hão de interpretar que a Lei de Moisés foi aprofundada por Jesus, sendo assim, em Cristo, há uma nova maneira de agir e pensar, que supera a Lei de Moisés.

Agindo conforme a Lei de Moisés, a interpretação de "Não matarás" é apenas a de que não devemos assassinar ninguém. 

Perceba o que Jesus diz no Sermão da Montanha: Vocês ouviram o que foi dito aos seus antepassados: "Não matarás", e "quem matar estará sujeito a julgamento. Mas eu lhes digo que qualquer que se irar contra o seu irmão estará sujeito à julgamento. Também, qualquer que disser a seu irmão "Racá", será levado ao tribunal. (Mateus 5. 21-22a)

Não matar não basta.

Jesus diz que não basta deixar de matar, o que interessa a Deus é o que se passa dentro do nosso coração. Não matamos, mas odiamos, chamamos de louco, de "racá". Alguns especialistas dizem que "racá" é aquele som gutural que produzimos quando estamos prestes a escarrar. É um xingamento horrível chamar uma pessoa de "racá", porque significa que vamos expelir e lançar fora alguém da nossa vida. Cuspir um ser humano, segundo Jesus, é um pecado comparado ao assassinato.

E como o modo "ético-evangélico" atual de dizer: não é meu irmão.

Deus se importa menos com o modo como nos comportamos aparentemente do que com aquilo que há dentro de nós. O propósito da lei não é servir como um conjunto de regras comportamentais, mas compartilhar com o ser humano o caráter e o coração de Deus. E no coração do Pai não há espaço para matar e odiar, tampouco para cuspir alguém como uma excreção. O que é reconciliação, compaixão, perdão. Um coração como o nosso deve ser.

Não matar não basta. É preciso aprender a ouvir, perdoar, reconciliar, oferecer oportunidade de compaixão e entender que se temos a Deus como Pai, não podemos rejeitar irmãos, por mais diferentes que sejam de nós.



Gito



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Kivitz, Ed René
Talmidim: O passo a passo de Jesus/Ed René Kivitz. - São Paulo: Mundo Cristão, 2012.
Talmidim 053, Cuspe, pg. 59

Caio Fábio
O paganismo da Amizade cristã.

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segunda-feira, 6 de maio de 2013

A única coisa que importa saber!




Deus é amor. E amor é o que todo ser humano quer. Portanto, quando alguém quer amor/amor, tal pessoa quer Deus, mesmo que não saiba.

Assim é que João, um dos apóstolos de Jesus, já idoso, mais ou menos aos 90 anos de idade, resumiu tudo o que de Deus em Cristo Jesus aprendeu e apreendeu, apenas dizendo:

Deus é amor. Quem ama é nascido de Deus e naturalmente conhece a Deus. Mas como Deus é amor e tanto Deus quanto o amor são invisíveis e inconfináveis, o único modo de se expressar o amor a Deus e à tudo quanto seja Vida em Deus, é amando o próximo e a toda a criação do Criador/Pai.

Desse modo é que se pode dizer que se Deus tem uma religião, ela tem apenas Um Dógma: amor segundo Deus.

Ora, o amor segundo Deus é entrega. Para Deus amar é dar vida e até a própria vida!

Entretanto, esse amar/dar/vida só se torna significativo no encontro do homem com outro humano ou com outra criatura, ainda que menor supostamente na percepção do existente.

O homem não tem como amar a Deus sem ser através do próximo!
Eu só expresso amor se minha vida for uma dádiva ao mundo no qual eu habito; seja esse mundo do tamanho que seja; grande ou pequeno; ou mesmo ínfimo.

Não adianta amar o Infinito se não se ama o finito!

O amor ao Infinito só é possível aos humanos como amor ao finito!

Afinal, de acordo com o espírito do Evangelho, quem não ama o pequeno, não ama o grande, assim como quem não é fiel no pouco, não é fiel no muito.

Desse modo se reconhece um filho de Deus: pela sua existência em estado de entrega ao amor como serviço sincero aos vivos e à vida.

E para que isto aconteça basta que a pessoa se dê em amor onde quer que esteja!

Em certas pessoas isto só acontece quando são chocadas pela pregação do Evangelho e se convertem. Há outras, todavia, que nunca tiveram essa informação, mas cresceram segundo o caráter dela, da informação. Com certeza apenas por causa de um segredo de Deus inexplicavelmente falado no silêncio de seus corações sinceros. Esses são os filhos de Deus que os religiosos insistem em chamar de "criaturas" de Deus, a fim de diferenciar um humano do outro; ou seja: o religioso do não religioso, ou do indiferente à religião.

O Pai, no entanto, sabe quem são os Seus filhos apenas e tão somente pela prática da fé que atua pelo amor, mesmo que tal fé na vida em amor não decorra de um ensino direto do corpo organizado do Evangelho.

Ora, isto é tudo que os "crentes" não gostam, ou mesmo abominam. Sim, pois tal liberdade de Deus lhes mata o discurso de "poder e detenção" da verdade e de sua aplicação "conquistadora" na existência do próximo.

Foi por esta razão que alguns entenderam no passado que a igreja -- como ente social e visível -- tem a muitos que Deus não tem; ao mesmo tempo em Deus tem muitos que a igreja não permite entrar.

Ou seja: a igreja pode estar cheia de gente sem Deus, enquanto Deus é Deus de muita gente sem "igreja"!

Nele, porém, todos os que são do amor, são da Igreja!

Nele, do mesmo modo, todos os que não são do amor, não são Dele; ainda que tenham igreja entre os homens.

É esta realidade prática do amor como confissão encarnada da fé que os "crentes" abominam; pois é melhor dizer que se crê num corpo de doutrinas do que entregar o corpo/ser para ser a encarnação do dogma de Deus: o amor.

Se o Evangelho não produz esse fruto em mim, saiba: é porque em mim o Evangelho de Deus não habita... ainda.

Nele,

Caio 
4/5/2013
Brasília

Para aqueles que conhecem a Deus, basta-lhes o dom de um dia o haverem conhecido. Esses servem a Deus por nada. Para eles tudo já está feito. Sim, esses são prósperos até quando passam fome.
Caio
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terça-feira, 16 de abril de 2013

Um mendigo no Palácio




Eu sou o mendigo que pede esmolas na porta do palácio e aceita o convite do Rei de tomar assento em sua mesa.

Não mereço. Não questiono. Apenas entro com os pés sujos no Palácio, sabendo que de alguma forma, o Rei me quer bem.

O que eu tenho a oferecer-lhe? Nada. Apenas aceito o seu convite feito cheio de bondade.

O Rei me quer perto, livre das minhas amarras. Livre da lógica cheia de maldade que diz que só os merecedores entram na presença do Rei.

- Eu não sou digno.
- Eu te dignifico.

Mesmo eu estando imundo, me abraça. Ainda que sujo, me recebe com ternura. 

Estende a mão enquanto escondo a face. 

- Podes morar aqui, se quiser. Viver à minha presença.
- O que fiz, quem sou eu para merecer, senhor?
- Você não merece. Eu apenas quero que seja assim.

Enquanto busco entender Suas palavras, a Sua mão estendida me toca a face. Quando eu O encaro, seus olhos estão marejados.



Gito.
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Obrigação e Benefício


Vi essa foto no facebook e fiquei pensando sobre a lógica da troca. Você precisa fazer algo e, em troca, será recompensado. Caso não faça conforme o proposto pela divindade, será amaldiçoado, ou deixado para fora da "salvação".

No caso da foto, ser "quase crente" implica em ser "quase salvo". Essa lógica diz que a divindade está preocupada com o nível de "crentice" (qual o termo mais apropriado?) e que há crentes "completos", já que há crentes "quase."

Essa medição está mais para o padrão religioso do que divino. Pois ao homem cabe nivelar homens. Qual seria o modo de Deus "crentear" mais um que outro ou melhor, definir critérios para a avaliação da "crença" para assim definir se salva ou não? Ou quase salva...

Também segundo essa lógica, só encontra "salvação" aqueles que desfilarem no sistema apropriado. Aqueles que têm, na imagem, as características de crente. Fala como, se veste como, pensa como, anda com. E Deus, vai anotando isso tudo para recompensar ou danar.

E mais: só encontra "salvação" quem crente for, conforme o modelo proposto. Ou seja, Deus está totalmente indisposto a salvar aqueles que não são conforme o modelo e principalmente aqueles que não são crentes. E também: não salvará nenhuma criatura nascida antes de 1500, quando surgiu a Reforma Protestante e depois de 500 anos, o termo "crente". Pois é do termo que a foto se refere, não naquele que "crê", ainda que fosse, a salvação não seria de acordo com o "nível de crença", pois estaríamos sempre abaixo da média. Aliás, mediríamos com quem? 

A Religião, segundo Otto Maduro, é o "conjunto de discursos e práticas referentes a seres superiores e anteriores ao ambiente natural e social, com os quais os fiéis desenvolvem uma relação de dependência e obrigação." 

Uma relação de obrigação e benefícios. Se dou o dízimo e ofertas, serei recompensado. Se vou à igreja um mês sem faltar, terei saúde. Se queimar um cordeiro num altar... se subir a escadaria de joelhos... se colocar uma oferenda na encruzilhada... se só ouvir música sacra... terei um benefício.

Não importa qual o modelo religioso, todos eles têm a mentalidade mais ou menos parecida: faço algo para a divindade, ela me retribui o favor.

Uma obrigação. Um benefício.

O problema dessa "teologia" é quando os problemas aparecem. Pois, segundo essa lógica fica fácil compreender que todo benefício é segundo a obrigação. Então, em caso de doença na sua família ou um acidente de trânsito foi porque você não cumpriu com a obrigação ou a fez de "qualquer jeito".

É o ser "inteiramente crente" para ser "inteiramente salvo".

Essa lógica é uma escravidão! E esse "deus" é um tirano!

O Evangelho de Jesus de Nazaré é a superação dessa mentalidade. Ainda que pessoas usem seu nome para dizer muita coisa e use seu nome para que se derrame muito sangue, essas pessoas não encontraram o Evangelho, mas sim, um modo "religioso" pelo qual, ainda que com o uso do nome ou dos termos, se pratique toda espécie de maldade. 

Se faz religião de tudo desde que queira. Se endeusarmos o Einstein, não quer dizer que ele estaria de acordo.

Jesus não foi o fundador de mais uma religião, ainda que, usando o seu nome, fizeram muitas.

Em suas palavras temos a superação da religião, o Evangelho de Jesus diz que Nele, temos o perdão de Deus e que não precisamos viver à margem da culpa, do medo e que não precisamos fazer nada para merecer a Sua bendição, o seu amor, seu favor, sua Graça. 

Ele diz que não "adianta colocar remendo novo em veste velha", trocar de religião e criar adaptações, isso ainda nos fará sermos escravos delas, quaisquer que sejam. Mas nos incentiva a mudar a nossa mentalidade. Acabar com a lógica das obrigações e benefícios para viver no Evangelho da Graça de Deus. O Evangelho que leva o ser humano a descansar no amor e na bondade de Deus.

Sem termos a "obrigação" de tentar arrancar uma bênção de Deus, um favor, um carro do ano, um antídoto contra a gripe ou sermos "super crentes para que sejamos super salvos". Apenas descansar que Ele é bom e nos quer bem e o mal que nos sucede é simplesmente porque estamos vivos num mundo cheio de percalços.

Se for pelos méritos, quem se salvará, sendo que Ele conhece o nosso interior?

A minha oração é para que eu seja salvo da lógica que escraviza segundo a religião e ao saber de Sua bondade, seja liberto das correntes que me prendem.

E isso sim me fará buscar melhorar minhas ações, mas sem a obrigação da troca. Apenas porque Ele me inspira em amor para que seja assim, tendo em Jesus, um exemplo a seguir.


Gito.

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Paraíso

Gentileza

Pálido Ponto Azul

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