sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Olhos cansados de ver



Ah, os meus olhos já viram, tanto, que envelheceram precoces...

Me quebraram. Me consertaram. Me transformaram ao me mostrarem muito.

A dor.

Vi desde cedo.

Em hospitais, nos pequenos e nos olhos dos pais sem saber o que pensar.

No preconceito racial tradicional de onde eu venho.

Na hipocrisia dos religiosos e na covardia dos, até então, valentes.

Olhos vão se envelhecendo sem ler poesia. Sem ver o que é belo.

Postos os olhos sobre a maldade e a dor, eles se cansam, eles precisarão de ajuda para conseguir um foco. E sendo contra a maldade e a dor como eu sempre me coloco, os olhos ficam idosos, cansados, desanimados de ver.

Meus olhos viram muito.

Mas nunca viram tanto quanto nos últimos meses.

Quando pararam de ver.

E passei a enxergar com o coração.

O outro, que deixou de ser outro, para ser o meu próximo.

O meu alvo de cuidado e afeto.

Sem que me pudesse devolver o que quer que fosse.

Não cobro nem um sorriso.

Sequer um obrigado.

É tudo Graça. De graça. Com graça, pois é sempre alegre.

É privilégio.

Enxergar com o coração.

Buscar sanar a dor mesmo com pontadas na gente que ferem a alma.

Dividir o pão que pouco dá pra um e ver todos comerem.

Milagres que acontecem na simples ação do compartilhar.

Do entregar.

Do deixar-se inundar de paz.

Do perceber-se colaborador de uma causa maior.

Que existirá apesar de você, que é simplesmente convidado.

Ah, os olhos... Viram tanto.

Que cansaram.

O coração continua firme. Consegue ver.

Vê a dor e se compadece.

Passa a padecer na mesma intensidade.

Mas os olhos... De tanto que viram, se fecham.

A alma não suporta.

É um perigo.

Quando a sua dor esconde a dor do outro.

É preciso ver com os olhos do coração.

Apesar das dores.

É com dores na gente que se cura a dor do outro.

Nunca foi sem dores. Jamais será.

A dor é sinal de que ainda somos gente.

Não nos psicopatizamos. Pois são eles os indiferentes à dor.

Naquele dia.

Mesmo sem os olhos funcionando bem.

Cansados...

Naquele dia verão.

Aquele que é Amor, vir para enxugar dos olhos toda lágrima.


Gito
Continue Reading

Acontece enquanto você lê



Nome: Israel

Apelido: Ban Ki-Moon

Porque? 

Em referência ao atual secretário-geral da ONU. Israel é líder nato. E o menor da turma, então as crianças dizem que ele é o chefe.

Idade: 3 anos.

Foi encontrado abandonado numa floresta.

Depois de uma surra. Pois trás marcas em seu corpo.

Porque o abandono? 

Por ter sido considerado uma criança-bruxa.

Quando isso? Na idade média? 

Hoje.

Quem faz isso com as crianças? Terroristas? 

Não. Líderes religiosos, em especial pastores ligados à Teologia da Prosperidade.

E porque fazem isso? 

Basicamente porque dá dinheiro.

E o governo não faz nada? 

Quando lhe convém.

E a ONU? 

Está mais preocupada com o que preocupa os EUA e Europa.

E a população? 

Há alguns que combatem esse horror. Mas perdem para a maioria que finge que nada disso acontece.

E a polícia? 

Quando é alarmante, vai. Depois entrega para o orfanato. Mas só quando é alarmante ou com muita insistência para que compareça.

E para onde essas crianças são levadas? 

São encaminhadas ao Orfanato do Caminho-Nações onde recebem tratamento apropriado, tem seus direitos garantidos, cuidados médicos, psicológicos, roupas, alimentação sadia, vão à escola, tem cursos de violão, futebol e um ambiente seguro e estruturado para que cresçam.

Como o Caminho-Nações mantém o orfanato? 

Através de doação, ofertas voluntárias, da venda de material como camiseta, livros e outros que se encontram nos sites. Em especial na Loja do Caminho.www.lojadocaminho.com


E nas páginas do Caminho-Nações no Facebook e Youtube.

A história de tão terrível parece ficção. Mas não é.

Israel existe mesmo. Está sentado no meu colo. Eu também existo.

Existimos durante a sua existência. Somos reais.

E isso tudo acontece enquanto você vive.

Nos nossos dias sobre a terra.

Virá sobre nós e nossos filhos as consequências de nossas escolhas na existência.

Intervir. Conforme lhe vier às mãos. Ou fingir que nada disso é real. E lavar as mãos.


Gito.
Continue Reading

Tudo parece impossível




Tudo parece impossível até que alguém vai lá e faz.


Não é exatamente assim a tradução da famosa frase de Nelson Mandela. Mas é assim que eu gosto de ouví-la.

Li essa frase num painel que leva seu nome, na capital da África do Sul. Onde Mandela foi o principal daqueles que fizeram acontecer aquilo que para muitos parecia impossível: O fim do Apartheid.

Estávamos aguardando o voo para Lagos, na Nigéria. Nosso destino: Eket, uma cidade no delta do Níger, cercada por uma densa vegetação e de clima tropical, cheia de igrejas e bares, onde o som alto dos rádios se misturam às buzinas de milhares de motos e aos gritos de dor das bruxas sendo torturadas.

As bruxas são crianças. Acusadas por líderes religiosos de estarem possessas de espíritos demoníacos, que fazem com que elas causem o terror no mundo. Eles as acusam de serem as causadoras das doenças, pois roubam a saúde. São as responsabilizadas pela miséria, pois roubam a prosperidade. São responsabilizadas pelo clima hostil ou pela chuva de pragas que tomou a lavoura e pode ser sinal de possessão o simples ato de falar durante o sono, a crise de tosse, o mal desempenho escolar ou a falta de apetite, coisas essas que toda criança pode ter. Essa acusação se transformou num fenômeno que gera muito dinheiro e dá muito lucro aos pastores acusadores, por isso é tão sutilmente efetuada, covardemente distorcida e tão difícil de ser combatida.

Os líderes cobram valores absurdos para desbruxificar uma criança. O que faz o mercado ser lucrativo. Pois a família que tem condições, paga e resolve o problema da bruxificação assim como o pai que paga a vacina contra a catapora do filho que quer bem. Já às famílias pobres, resta apenas uma solução para o problema, solução simples e rápida: o abandono. Seguido de maus tratos e tortura pela população que os rejeita. E pela morte. De um pequenino que não sabe porque apanha tanto e que está condenado à morte, num país onde é perigoso ser criança. É quase sempre assim que acontece. E é por isso que viemos para cá. Para intervir nessa desgraça.

Fico imaginando Mandela entre os pequeninos de sua África. O rebelde preso que se transformou no presidente do país e que nunca abandonou os sonhos de mudança e o sorriso fácil, nem preso numa cela pequena de uma ilha, nem caminhando nos tapetes para receber o prêmio Nobel da Paz.

Mandela não pode vir. Mas sua frase, de uma forma ou de outra, traduz o sentimento da nossa equipe. Pois enquanto a líamos no painel, éramos sendo contaminados com a coragem dos que ousaram. E a gente estava à caminho, indo, com um sorriso no rosto, ousar não se conter e nem se calar, por aí, para transformar o imnpossível em realidade.

Viemos para o Factory of Hope. Um orfanato da Agência Humanitária Caminho-Nações e que abriga mais de 30 crianças consideradas bruxas, garantindo segurança, alimentação, escola e outros direitos aos pequeninos resgatados em situações de abandono e até mesmo tortura.
O Caminho-Nações está aqui há quatro anos e meio, na luta contra a bruxificação e em resgate aos pequeninos. Eu tive o privilégio de servir como voluntário por três meses no orfanato e nunca mais consegui voltar para a casa com meu coração.

Ele ficou com os pequenos.

No choro das despedidas e no sorriso das chegadas. Encontros e me encontro.
E foi assim quando parti em dezembro do ano passado. Com choro deles, escancarado. E choro meu, escondido. Pois queria que eles me vissem e me percebessem decidido a voltar. Coisa que desconfiariam se me vissem chorar. Por isso fiz-me valente e guardei meu choro pro banheiro do aeroporto.

Eu tinha prometido voltar.

E agora, seis meses depois, na chegada, assim que o portão se abriu, fui cercado de abraços e braços, de sorrisos e de pequeninos, o que me fez sentir bater tão forte o coração que tive que me sustentar em pé no abraço deles.

Éramos uma van cheia de adultos encantados.

Elas não são bruxas. Nunca foram. Nunca serão. Mas têm o poder de encantar adultos.
O Marcus Táti, que vinha filmando, tremia a câmera por causa da emoção diante da recepção que recebíamos. Andréa, se deixou ser cobiçada por mãozinhas que a queriam tocar e abraçar. Tatyana colocou a mão no vidro da van enquanto todos desciam, logo uma mãozinha do outro lado do vidro colou na sua. Riva, já colocou um menor dos menores nos seus braços. Sara, minha esposa, procurava os rostinhos que ela já conhecia por foto e por ter me ouvido falar tanto e chorava quando os reconheciam. Chico as apadrinhou. Bem que tentou filmar nossa chegada, mas preferiu largar a câmera e partiu pro abraço. O Marcelo, que até então conhecia nosso espaço de ouvir falar e por fotos, mesmo tendo sido o responsável por fazê-lo ser realidade, ficou mudo de alegria e contemplação enquanto o Léo, que é nosso diretor aqui, via tudo com olhar paterno e doce.

Chegamos ontem.

E hoje, bem... o dia já está no fim.

Escrevo na escuridão da madrugada, como já me acostumei por aqui e com a trilha sonora dos insetos e da chuva, que cai leve e sem pressa de terminar.

Hoje a tarde, as mulheres da equipe faziam as unhas de todas as garotas e os rapazes faziam aviões de papel para os meninos, que corriam atrás deles como se fossem decolar. Eu jogava futebol com alguns deles enquanto o marcelo mostrava muitas fotos.
Foi um tempo de interação com todos. Adultos e crianças, um sem medo do outro. Adultos que não temem ser enfeitiçados de amor pelos pequenos. E crianças que não temem o abraço carinhoso dos adultos.

Olhei para um deles. Um bruxinho de cinco aninhos. Enfiaram pedaços de paus nas suas costas. Ele não costumava sorrir quando chegou. Mas agora abria uma gargalhada quando tentava pegar o avião que voava acima dele. Ele não brincava com ninguém, mas agora corre com todas as outras crianças no terreno de areia. Parecia impossível que fosse sobreviver. Mas alguém foi lá e fez, na marra, ser. E ele vive e cresce a cada dia.

Antes de dormir, Sara chorou a dor do abandono deles. Chorou a dor do caos de suas vidinhas. Compaixão. Doía nela a dor deles.

- Ele correu tão feliz atrás de um aviãozinho de papel como se fosse o brinquedo mais caro do mundo... meu Deus!

Foi o que ela disse chorando e dormiu.

Eu fiquei pensando... no aviãozinho de papel, com um choro engasgado.

- Sobe nele e decola, Kingsley... – Me flarei pensando, enquanto as lágrimas se derramaram e eu agradeci a deus a oportunidade de fazer parte dessa história, de ter vindo, de ter sido enviado por muitos do Brasil para juntos continuarmos a fazer acontecer o que parecia ser impossível.

Um menino à correr com seu aviãozinho de papel e livre à voar, feito passarinho.

E que depois de lançar seu avião amassado, volta sorrindo com os olhos grandes e diz:
- Olha, ainda pode voar!

Sem saber que ao falar do avião, falava de si mesmo.


Gito.
Continue Reading
 

Ambiente de Esperanças

Sara e os pequenos

Está insuportável

Gito Copyright © 2009 Customized by @gitoxx