quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Por que vou voltar



Estou me organizando para voltar à Nigéria em Janeiro de 2015. Muitos já me alertaram que acham arriscado depois da malária que tive em Julho deste ano, mas todos os meus exames deram negativo para a possibilidade de novos parasitas e estou me sentindo bem. Melhor do que sempre.

Minha esposa, família, meus pais e meus líderes na caminhada da vida me autorizaram a continuar a jornada. 

E tenho firme convicção em fé para prosseguir.

Desde Janeiro deste ano que estamos organizando uma equipe para passar um mês na construção de um espaço que seja referência na Nigéria. Eles doarão suas férias e estão arcando com todas as despesas. Só não iremos caso haja novos casos de Ebola no país, que neste momento controla o surto.

E precisamos organizar a rotina das crianças e a agenda do orfanato, para mantê-los alerta em caso de uma possível nova investida do vírus pela região.

Com a Expedição Fabricando Esperanças, de Julho, demos início a muitos projetos no orfanato. Montamos a casa dos voluntários e a mobiliamos. Quartos com cama e ventilador, banheiros com chuveiro, cozinha com fogão e geladeira, tem até um sofá. Duplicamos a capacidade de armazenamento de água no orfanato e reparamos o gerador de energia; organizamos a Casa das Crianças, onde elas têm acesso à Biblioteca e Brinquedoteca, sala de estudos e Sala de TV. O Léo montou a lavanderia, com Máquina de lavar e secadoras e muito mais.



Apesar de diversos avanços, Julho não foi tempo suficiente para todas as transformações que queremos no Orfanato. Por isso voltaremos com uma equipe especializada para avançarmos ainda mais.

Para os pequenos, aquele lugarzinho já tem cheiro de céu. Novas ações transformarão o futuro deles. Estamos fabricando no coraçãozinho deles, muita esperança com o que há de vir.

É por isso que vamos voltar. Para regar a sementinha que plantamos quando olhando nos olhos deles prometemos que eles nos teriam para sempre.

Para ajudar nosso gêniozinho que foi o melhor da sua turma na escola, sendo que começou a estudar há menos de um ano.

Para abraçar a menina que cresceu sem ninguém e sem esperança de futuro, sendo sempre machucada por onde quer que fosse e que apesar do que viveu, se encheu de inspiração com as nossas voluntárias e falou: Quando crescer, quero ser como vocês.

Vamos para gerar vida em pequenos que eram ameaçados de morte. Para levar luz ao coração e às lâmpadas que eles só conheceram quando chegaram no orfanato. Para dar colo e cama com lençol cheiroso. Para vê-los dividir o almoço, não mais porque falta, mas sim porque já comeu tanto que se encheu. Para vê-los lindos indo de azul e amarelo para a escola, com cadernos e mochilas e cantando pelo caminho.

Para ter o prazer de arrancar uma gargalhada da menina que não sabe se ri ou se chora quando a gente disser ao abrir o portão: Viu, não falei que a gente voltava?



Vamos voltar para transformar ainda mais aquele espaço e a vidinha dos que lá habitam. Para continuarmos a luta contra a exploração dos pequeninos. Exploração que segue impiedosa dia após dia.

Ciente dos riscos. E com uma certeza: O maior perigo é não amar.

Nos ajude a ir! 

Caso queira ser um colaborador, em especial para esta Expedição, me escreva: gito@caminhonacoes.com


Gito Wendel
Voluntário à Nigéria.
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quinta-feira, 2 de outubro de 2014

A Feiticeira



Na Expedição de Julho, nós levamos as crianças para a praia e na volta eu estava quebrado.

É que no futebol, meu time sacolou o time do Léo com 07 gols.

Eu ainda era gordinho, antes da malária.

Estilo Ronaldo Fenômeno e Walter, gordinhos matadores. Fiz 03 dos 07.

Mas correr feito doido atrás daqueles meninos nigerianos me quebrou.

Os dias lá são intensos.

Há pre-ocupações tantas... e tanta coisa à fazer...

Que tem dia que até amarrar os cadarços cansa.

E quando você relaxa um pouco... apaga.

E eu apaguei.

Ainda bem que tinha colo.

E cafuné.

De uma criança que um ano antes diziam que enfeitiçava, roubava saúde, prosperidade, e sei lá mais o quê...

Abandonada... bruxa...

Marthinha enfeitiça mesmo.

Me enfeitiçou.

Tanto, que não há um dia em que eu não sinta falta do seu cafuné.

Dos seus olhos doces e tristes...

Do seu colo.

E de dizer, olhando nos olhos dela, que por ela, eu tenho coragem de enfrentar leões.

Gito Wendel



#juntospodemosmais
#FabricandoEsperanças

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sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Olhos cansados de ver



Ah, os meus olhos já viram, tanto, que envelheceram precoces...

Me quebraram. Me consertaram. Me transformaram ao me mostrarem muito.

A dor.

Vi desde cedo.

Em hospitais, nos pequenos e nos olhos dos pais sem saber o que pensar.

No preconceito racial tradicional de onde eu venho.

Na hipocrisia dos religiosos e na covardia dos, até então, valentes.

Olhos vão se envelhecendo sem ler poesia. Sem ver o que é belo.

Postos os olhos sobre a maldade e a dor, eles se cansam, eles precisarão de ajuda para conseguir um foco. E sendo contra a maldade e a dor como eu sempre me coloco, os olhos ficam idosos, cansados, desanimados de ver.

Meus olhos viram muito.

Mas nunca viram tanto quanto nos últimos meses.

Quando pararam de ver.

E passei a enxergar com o coração.

O outro, que deixou de ser outro, para ser o meu próximo.

O meu alvo de cuidado e afeto.

Sem que me pudesse devolver o que quer que fosse.

Não cobro nem um sorriso.

Sequer um obrigado.

É tudo Graça. De graça. Com graça, pois é sempre alegre.

É privilégio.

Enxergar com o coração.

Buscar sanar a dor mesmo com pontadas na gente que ferem a alma.

Dividir o pão que pouco dá pra um e ver todos comerem.

Milagres que acontecem na simples ação do compartilhar.

Do entregar.

Do deixar-se inundar de paz.

Do perceber-se colaborador de uma causa maior.

Que existirá apesar de você, que é simplesmente convidado.

Ah, os olhos... Viram tanto.

Que cansaram.

O coração continua firme. Consegue ver.

Vê a dor e se compadece.

Passa a padecer na mesma intensidade.

Mas os olhos... De tanto que viram, se fecham.

A alma não suporta.

É um perigo.

Quando a sua dor esconde a dor do outro.

É preciso ver com os olhos do coração.

Apesar das dores.

É com dores na gente que se cura a dor do outro.

Nunca foi sem dores. Jamais será.

A dor é sinal de que ainda somos gente.

Não nos psicopatizamos. Pois são eles os indiferentes à dor.

Naquele dia.

Mesmo sem os olhos funcionando bem.

Cansados...

Naquele dia verão.

Aquele que é Amor, vir para enxugar dos olhos toda lágrima.


Gito
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Ambiente de Esperanças

Sara e os pequenos

Está insuportável

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