terça-feira, 4 de novembro de 2014

Dia das Bruxas na Nigéria



Na Nigéria não tem dia das bruxas e nem feriado. Mas insistem em dizer que há bruxas por lá. Crianças pobres nos vilarejos sem muita informação além das conversas em noite enluarada e das mensagens dos religiosos nas igrejas.

É assim que se sabe das coisas. O que se passa. As notícias. As fofocas. E claro, as mentiras, as invenções, as crendices, a propaganda do medo.

Já aconteceu, lá nas matas que rodeiam as cidades, de se ouvir no silêncio das madrugadas o grito fraco de uma criança amarrada tão fortemente que a corda deixou braço em carne viva.

A criança, dizem, é bruxa má. Rouba saúde, dinheiro, sonhos. Rouba vidas. Mata, só de piscar, gente grande e forte.

Ah, pensando bem... na Nigéria sim tem Dia das Bruxas. Quando são levadas inocentes à frente da multidão que lota templos cheios de mosquitos rodeando lamparinas e monstros rodeando pequeninos.

Neste dia, sua vida ficará marcada para sempre, e seu corpo, e sua memória e também seu coração. Isso quando suportam a dor das pancadas que reforçam frases de efeito e demonstração tola de poder. Quase sempre o dia das Bruxas na Nigéria é o primeiro dia do fim na vida de muitos que ainda nem começaram a viver de tão pequenos.

Nos países onde se comemora o Halloween, as crianças ganham doces e balas, senão fazem travessuras.

Na Nigéria, a religião ensinou que menino que faz travessura é bruxo e que deve ganhar uma bala, no meio da cara.

Essa loucura lá, fez menino ser morto com martelo e talhadeira em dia de Natal, como se lê nos manuais da Idade Média que se deve matar vampiros.

Fez pai colocar cadeado para sufocar o grito do filho-bruxo de 4 aninhos.

Fez o grupo de religiosos servir sopa envenenada para meninos que dormiam esfomeados no terreno baldio.

Ah... quanta loucura...

Mas vem o dia, e já chegou, em que da semente da esperança florescerá uma árvore cheia de frutos bons.

Na Nigéria há um lugar bem no epicentro do fenômeno, onde ao amanhecer se ouve o grito de uma criança a avisar que o café está servido. Correm dezenas de outras vestindo azul e amarelo para irem à escola. Lá, todas são sobreviventes. Lutam contra o medo e as lembranças com coragem de leão! Se agarram na esperança e fazem da vida um hino de louvor à Deus que até os anjos silenciam.

É um cantinho alugado, que sempre precisa de reparos, de voluntários, de boa vontade dos de longe.

Neste lugar não há bruxas. Nunca haverá.

Pois não é lugar de medo, onde se cria as loucuras.

Lá é ambiente regado de amor, perdão, Graça e paz.

E não é o ambiente em si, é que tem gente que não se deixa vencer pelo mal. Mas vence o mal com o bem.

Insistem, insistem, insistem... no amor e no amar. Há uma insistência pelo que é bom e bem. Insistem em amar, apesar de.

O Amor, lança fora todo o medo.

É por isso, que nesse lugar em noite enluarada, o tio Léo conta história de uma noite estrelada lá em Belém... noite cheia de paz... e todos dormem amontoados, seguros, junto do tio.

O amor vence o medo.

Vence tudo.


Gito.
Continue Reading

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Por que vou voltar



Estou me organizando para voltar à Nigéria em Janeiro de 2015. Muitos já me alertaram que acham arriscado depois da malária que tive em Julho deste ano, mas todos os meus exames deram negativo para a possibilidade de novos parasitas e estou me sentindo bem. Melhor do que sempre.

Minha esposa, família, meus pais e meus líderes na caminhada da vida me autorizaram a continuar a jornada. 

E tenho firme convicção em fé para prosseguir.

Desde Janeiro deste ano que estamos organizando uma equipe para passar um mês na construção de um espaço que seja referência na Nigéria. Eles doarão suas férias e estão arcando com todas as despesas. Só não iremos caso haja novos casos de Ebola no país, que neste momento controla o surto.

E precisamos organizar a rotina das crianças e a agenda do orfanato, para mantê-los alerta em caso de uma possível nova investida do vírus pela região.

Com a Expedição Fabricando Esperanças, de Julho, demos início a muitos projetos no orfanato. Montamos a casa dos voluntários e a mobiliamos. Quartos com cama e ventilador, banheiros com chuveiro, cozinha com fogão e geladeira, tem até um sofá. Duplicamos a capacidade de armazenamento de água no orfanato e reparamos o gerador de energia; organizamos a Casa das Crianças, onde elas têm acesso à Biblioteca e Brinquedoteca, sala de estudos e Sala de TV. O Léo montou a lavanderia, com Máquina de lavar e secadoras e muito mais.



Apesar de diversos avanços, Julho não foi tempo suficiente para todas as transformações que queremos no Orfanato. Por isso voltaremos com uma equipe especializada para avançarmos ainda mais.

Para os pequenos, aquele lugarzinho já tem cheiro de céu. Novas ações transformarão o futuro deles. Estamos fabricando no coraçãozinho deles, muita esperança com o que há de vir.

É por isso que vamos voltar. Para regar a sementinha que plantamos quando olhando nos olhos deles prometemos que eles nos teriam para sempre.

Para ajudar nosso gêniozinho que foi o melhor da sua turma na escola, sendo que começou a estudar há menos de um ano.

Para abraçar a menina que cresceu sem ninguém e sem esperança de futuro, sendo sempre machucada por onde quer que fosse e que apesar do que viveu, se encheu de inspiração com as nossas voluntárias e falou: Quando crescer, quero ser como vocês.

Vamos para gerar vida em pequenos que eram ameaçados de morte. Para levar luz ao coração e às lâmpadas que eles só conheceram quando chegaram no orfanato. Para dar colo e cama com lençol cheiroso. Para vê-los dividir o almoço, não mais porque falta, mas sim porque já comeu tanto que se encheu. Para vê-los lindos indo de azul e amarelo para a escola, com cadernos e mochilas e cantando pelo caminho.

Para ter o prazer de arrancar uma gargalhada da menina que não sabe se ri ou se chora quando a gente disser ao abrir o portão: Viu, não falei que a gente voltava?



Vamos voltar para transformar ainda mais aquele espaço e a vidinha dos que lá habitam. Para continuarmos a luta contra a exploração dos pequeninos. Exploração que segue impiedosa dia após dia.

Ciente dos riscos. E com uma certeza: O maior perigo é não amar.

Nos ajude a ir! 

Caso queira ser um colaborador, em especial para esta Expedição, me escreva: gito@caminhonacoes.com


Gito Wendel
Voluntário à Nigéria.
Continue Reading

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

A Feiticeira



Na Expedição de Julho, nós levamos as crianças para a praia e na volta eu estava quebrado.

É que no futebol, meu time sacolou o time do Léo com 07 gols.

Eu ainda era gordinho, antes da malária.

Estilo Ronaldo Fenômeno e Walter, gordinhos matadores. Fiz 03 dos 07.

Mas correr feito doido atrás daqueles meninos nigerianos me quebrou.

Os dias lá são intensos.

Há pre-ocupações tantas... e tanta coisa à fazer...

Que tem dia que até amarrar os cadarços cansa.

E quando você relaxa um pouco... apaga.

E eu apaguei.

Ainda bem que tinha colo.

E cafuné.

De uma criança que um ano antes diziam que enfeitiçava, roubava saúde, prosperidade, e sei lá mais o quê...

Abandonada... bruxa...

Marthinha enfeitiça mesmo.

Me enfeitiçou.

Tanto, que não há um dia em que eu não sinta falta do seu cafuné.

Dos seus olhos doces e tristes...

Do seu colo.

E de dizer, olhando nos olhos dela, que por ela, eu tenho coragem de enfrentar leões.

Gito Wendel



#juntospodemosmais
#FabricandoEsperanças

http://www.fabricandoesperancas.com/

http://doeagora.caminhonacoes.com/

http://www.caminhonacoes.com/
Continue Reading
 

Ambiente de Esperanças

Sara e os pequenos

Está insuportável

Gito Copyright © 2009 Customized by @gitoxx